Desde segunda-feira, quando soube da notícia por intermédio do coordenador de jornalismo, procuro uma forma convincente de dizer à minha namorada o que vou fazer no sábado. O estranhamento começa no fato de que trabalharei desde de manhã cedo até tarde da noite, apesar de o meu plantão ser no fim de semana seguinte. Mas acho que isso ela aceita; a profissão é assim mesmo. Passada essa etapa inicial, preciso lhe contar que a pauta é em Conservatória, mas não diz respeito a serestas. Com um sorriso irônico, esclarecerei:
- A cidade vai sediar o I Festival do Filme Ufológico.
Pensando bem, é melhor abandonar o sorriso irônico. Ela pode reagir agressivamente ao recurso bem-humorado. E é provável que me chame de calhorda e cafajeste antes de desferir o primeiro golpe. Talvez seja conveniente iniciar o assunto com um comentário.
- Não sabia que existem tantos trekkers e x-filers remanescentes dos modismos que levam essa coisa de ETs tão a sério.
- Ã? Como assim? Por que isso agora?
- Sabe Conservatória, a Cidade das Serestas? Então, Conservatória vai receber uma legião desses caras no sábado. É um festival aí de filmes sobre óvnis - breve pausa, seguida de um sussurro quase ininteligível: - Eu vou cobrir...
- O quê? Você vai cobrir?! - grita ela. - Pôxa, você poderia pelo menos inventar uma desculpa verossímil.
Má idéia. Não transmite seriedade. Uma abordagem mais apropriada seria falar sobre a biografia de alguns conferencistas e lhe mostrar, como prova irrefutável, o press-release. Mas não deve ser suficiente. Na melhor das hipóteses, ela vai ouvir tudo o que tenho a dizer sem esbravejar e, no fim, comentará, hesitante, o choro contido:
- Quer dizer que um conferencista escreveu "Os Discos Voadores e a Origem da Humanidade", em que apresenta de maneira bem fundamentada sua teoria sobre a origem extraterrestre dos seres humanos, né?
- É!
- Ã-rã. E o outro é autor de que livro mesmo? - uma lágrima lhe percorre a bochecha.
- Tá aqui, ó - digo eu, exibindo a terceira página do material de divulgação: - "Maias e Hopis, povos fugitivos de uma catástrofe cósmica".
- Você me decepcionou, sabia? Chegar ao cúmulo de forjar um release para tentar me enganar! Até traição eu toleraria, mas não posso suportar a mentira. É impossível manter um relacionamento sem confiança mútua.
Se essa estratégia tampouco dará certo, só existe um jeito de salvar o namoro. Irei à casa dela, tocarei a campainha e, quando ela atender à porta, direi, em tom baixo e monocórdio:
- Tenho uma amante e vou viajar com ela para Conservatória neste sábado. Pronto, falei.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
ETs em Conservatória
A história é de 2004, mas não me canso de repeti-la.
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Um comentário:
acho que vc deveria ter falado impropérios para o seu chefe.
ou ter trazido uma anteninha de marciano para ele
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